
Uma chávena quente mantinha as minhas mãos longe do frio. Uma conversa lembrava a razão do meu coração estar quente. Falávamos das namoradas, da família, de música e de nós. De vez em quando um trago quente ressuscitava a voz e deixava a chávena mais fria. Mais umas palavras quentes mantinham o ambiente confortável e apetitoso. Uma chávena poisada, umas palavras vindas de uma cabeça quente, um suspiro e uma chávena que voltava a proteger as mãos do frio. De vez em quando uma mão fugia para dar voltas no ar, acompanhando algumas outras palavras, e voltava a proteger-se na chávena. Mais um trago, umas risadas, mais palavras e mais um trago. Enfim a chávena tornou-se fria e incapaz de proteger as mãos. O relógio, vendo isto, lembrou-se de se colocar à frente de dois olhos. Umas palavras de despedida e um abraço. Um porta fecha e ambas as chávenas são lavadas, secas e arrumadas. Enquanto um corpo se deita elas ficam a sonhar com o sabor do próximo chá.
Ouvia os meus passos 


Estava a passear o meu corpo pelo parque da cidade numa manhã de Dezembro. O céu estava limpo e soprava uma suave brisa fria. Com estas condições era óbvio que se tinha formado geada durante a noite. De facto estava uma leve camada branca a cobrir as folhas da relva, dos arbustos e das árvores. Os raios do sol começavam a derreter os grãos de gelo presos nas árvores, de maneira que parecia estar a chover. Numa parte do parque o sol incidia directamente sobre a relva, de maneira que a água há muito que descongelara. No entanto existia um pequeno arbusto no meio do relvado que, claro, possuía a sua sombra, lançada sobre uma pequena parte no relvado. Na sombra do arbusto a geada ainda não havia dissolvido.