
A areia do chão sentiu o peso do meu joelho e logo começou a responder a este ataque, marcando e criando pequenas feridas. As minhas mãos largaram o gume e a protecção para apoiarem o meu joelho nesta luta. Da minha testa escorria uma mistura de suor e sangue que acariciava a minha face, a minha barba por fazer, e pingava do meu queixo, regando a areia e tentando distraí-la. A ponta de uma espada poisava calmamente no meu pescoço. Uma voz questionou o meu arrependimento quanto à minha entrada naquela luta. Eu tinha entrado naquela confusão por amor, por paixão e impaciência. Não aguentava a distância, a antecipação, a vontade frustrada. E também não aguentava aquela estúpida alegria de sentir que amava e era amado e não o poder demonstrar com as minhas mãos e com os meus lábios. Peguei numa espada e lutei contra todas aquelas mãos e espadas que me separavam do que eu queria. Sacrifiquei tempo, dinheiro, outras actividades, porque para sermos felizes temos sempre de sacrificar algo. Agora acabava de sacrificar também a minha vida. Mas não havia problema, com um berro gritei "Enquanto houver vida, haverá tristeza, e tu vais agora acabar com ela!" Uma voz arrogante, sorrindo, apenas disse "Mas com vida também há alguma alegria e felicidade! E sem vida não há nada!" Uma lágrima soltou-se com o choque que estas palavras e o gume da espada fizeram no meu coração.

Ouvia os meus passos 


Estava a passear o meu corpo pelo parque da cidade numa manhã de Dezembro. O céu estava limpo e soprava uma suave brisa fria. Com estas condições era óbvio que se tinha formado geada durante a noite. De facto estava uma leve camada branca a cobrir as folhas da relva, dos arbustos e das árvores. Os raios do sol começavam a derreter os grãos de gelo presos nas árvores, de maneira que parecia estar a chover. Numa parte do parque o sol incidia directamente sobre a relva, de maneira que a água há muito que descongelara. No entanto existia um pequeno arbusto no meio do relvado que, claro, possuía a sua sombra, lançada sobre uma pequena parte no relvado. Na sombra do arbusto a geada ainda não havia dissolvido.