
O esforço para escrever algo era muito grande. Corriam temas e assuntos e imagens e situações e hipóteses, mas cada vez que o cursor ia deixando letras atrás de si, um olhar reprovador faziao voltar para trás recolhendo aquela sementeira. O terreno estava bem lavrado, os regos estavam todos alinhados, a terra estava fértil, a rega estava pronta para épocas difíceis, o antivírus estava actualizado e a função para salvar o documento estava activa e funcional, simplesmente a semente não era boa para morrer na terra e dar um bom texto. Não funcionava! As palavras estavam bem escritas, seguiam regras sintáticas, estavam a fazer sentido, mas nao encaixavam, não mostravam nada sentido, não tinham um enquadramento criativo e com qualidade. Não valia a pena escrevinhar qualquer coisa só para dizer que se escreveu. Desliguei!






O ar era empurrado para fora daquele corpo pela pressão dos dedos e formava um ligeiro borbulhar à tona da água. Um sorriso era solto pelo reenchimento daqueles espaços com água, que se disfarçava com a suposta piada daquele anterior borbulhar. Em seguida o corpo sorridente, imitando fielmente o ritual do nascimento da carne, sentia uma chuva morna a percorrer locais aleatórios da sua pele. Apenas o esvaziar de todos os poros amainava aquela tempestade, que era seguida novamente pela expulsão de ar. Dez dedos mantinham-se mergulhados permanentemente na água, enquanto cinco mantinham o batimento da nuvem artificial e outros cinco se perdiam por um campo de trigo negro. As linhas soridentes ansiavam por colar-se a outras homónimas, e quando os cinco ceifeiros pareciam denunciar esse tão esperado contacto, decidiram antes executar aqueles imprudentes que preferiram abrir a porta a outros que proferiram palavras bonitas, que proferir palavras bonitas àqueles que a bomba que agora parava sempre pedira para tocar. E um corpo sorridente espelhava horror enquanto, mergulhado totalmente na água, sentia espaços vazios a encher e a pele a enrrugar.



Ouvia os meus passos 


Estava a passear o meu corpo pelo parque da cidade numa manhã de Dezembro. O céu estava limpo e soprava uma suave brisa fria. Com estas condições era óbvio que se tinha formado geada durante a noite. De facto estava uma leve camada branca a cobrir as folhas da relva, dos arbustos e das árvores. Os raios do sol começavam a derreter os grãos de gelo presos nas árvores, de maneira que parecia estar a chover. Numa parte do parque o sol incidia directamente sobre a relva, de maneira que a água há muito que descongelara. No entanto existia um pequeno arbusto no meio do relvado que, claro, possuía a sua sombra, lançada sobre uma pequena parte no relvado. Na sombra do arbusto a geada ainda não havia dissolvido.