
Ouvem-se estalidos ao longe. Aquela sinfonia cadenciada aclama à aldeia o desespero de uma mãe, que lhe vê serem retirados seus filhos. Corro para assistir à cena e deparo-me com duas lâminas siamesas a cercarem um filho, a abrirem-se bem e cortarem o cordão umbilical. Os filhos da vinha descrevem um movimento vertical de queda até se encontrarem com a mãe da vinha, sua avó, a terra! E é no colo de sua avó que morrem, são acamados, atados com vimes (filhos do vimeeiro, planta que ajuda na carnificina), deixados a secar ao sol e, depois de o seu calor cozer o pão e aquecer os filhos do homem, são seus restos mortais espalhados por este colo muitas vezes frio, mas sempre pronto para acolher qualquer um, sejam seus netos da vinha, seja seus netos do homem. Enquanto isto a mãe vinha, atado pelos filhos do vimeeiro para não acudir os seus, apenas chora, chora, chora.
Os filhos da vinha foram roubados a sua mãe e sua mãe, agarrada pelos malfeitores, apenas chora de tristeza. E eu, vendo aquela cena,penso no que me foi roubado e choro de raiva. Quem me dera ser vinha, para, ano após ano ver serem-me roubados os meus filhos e chorar de tristeza. Mas não sou vinha, e então vejo serem-me roubados amigos, pais, irmãos, filhos, companheiros, e choro de raiva contra o manuseador da tesoura, em vez de chorar a ausência dos meus ramos, das minhas vides!