quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Guerreiro da luz

A minha cabeça poisou num pequeno monte de penas e senti tudo o que estava à minha volta a girar. A parede, o guarda-fatos, a mesa cabeceira, a porta, o candeeiro, o tapete, as sapatilhas, tudo girava cada vez mais depressa! Fechei os olhos para não enjoar com aquela imagem. Senti-me mais leve, como se uma brisa estivesse a elevar os lençóis que me cobriam. Aquela leveza levava os meus sentimentos de raiva e as minhas mágoas embora. Senti a brisa a parar, os lençóis e o monte de penas a cairem-me aos pés, o cabelo a roçar a testa. Estava de pé! Olhei à volta e do quarto onde me deitei apenas sobrava o monte de penas e o lençol espalhados no chão, ali abandonados e a ficarem cheios de terra seca. Os meus pés sentiam bem aquele solo, enquanto me via numa planície castanha com o horizonte pintado de azul. Uma luz surgia à minha frente. Avancei na sua direcção, dei alguns passos e acabei por sentir os meus pés amarrados por heras que ali antes não existiam. Estava preso naquele sítio! Uma figura masculina vestia uma armadura dourada, segurava numa mão uma espada e na outra uma balança. Possuia ainda um par de asas brancas que se desprendiam das costas e se abriam em todo o seu explendor de lado a lado, fazendo sombra sobre os meus olhos. Os lábios daquela figura eterneceram-se ao ver-me preso e libertaram um “Não te posso ajudar! Já travei demasiadas lutas tuas. Está na hora de tu te libertares sozinho!” A minha voz desesperou “Mas que posso usar para me soltar?” Recebi a resposta que já adivinhava “ Usa o teu coração!” Olhei para o meu peito, para o pedaço de carne que tinha amaldiçoado nos últimos tempos, aquele bocado de carne que eu chamara de egoísta e ruim e ele simplesmente bateu! Mas o seu batimento estremeceu a terra em minha volta. Outra batida! Mais uma vez a terra estremeceu. Outra batida! As cordas soltaram-me e o anjo voou em direcção à luz gritando “Vive guerreiro da luz! Vive por ti, pelo teu coração e por quem o ama!”
Acordei com suores frios! Olhei para a parede e vi lá a imagem do meu anjo. Tinha sido o anjo S. Miguel que me tinha mandado acordar! Eu inspirei fundo e deitei-me. Precisava de descançar mais um pouco antes de voltar a viver...

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Chuva viva

Uma pequena gota escorria pelo vidro. Quanto mais escorria a mais outras gotas se juntava, ficando mais pesada e escorrendo cada vez mais depressa em direcção ao precipício onde a minha alma se sentia. O relógio insistia em marcar a passagem dos segundos, a passagem do tempo que eu perdia agarrado àquele desperdício de vida. É engraçado que o relógio é a prova mais evidente de que o tempo passa sem parar e mesmo assim usamo-lo para desperdiçar mais um pouco da nossa vida nos nossos stresses e correrias. Outra gota começava a sua descida em direcção ao precipício onde aguardava a minha alma pela minha reacção. Mas a minha coragem continuava envergonhada a um canto e a minha vontade de viver tinha feito uma pausa. E eu continuava a ver as gotas a iniciarem a sua descida lentamente e a acabarem a correr em direcção ao precipício onde a minha vontade e auto-estima se tinham juntado à minha alma. E eu observava mais gotas a descerem. Pus um dedo no vidro do tranporte imobilizado. O meu cabelo escorria água e as minhas roupas estavam demasiado assustadas com o meu estado de espírito para se descolarem do meu corpo. O meu dedo apanhou uma gota de água que corria para o seu fim. Ela deteve-se um pouco no meu dedo, olhou para mim com tristeza e esperou. Não lhe consegui dizer nada. E ela simplesmente sorriu para mim e caiu. Ela sentia-se feliz por continuar o seu caminho e morrer no precipício onde estava a minha alma. Olhei para cima, para o ventre que paria todas aquelas pequenas vidas. A progenitora sorriu para mim. Senti uma revolta e gritei-lhe “Como podes estar feliz se estás a enviar os teus filhos para a morte?”Ouvi então a resposta que eu precisava para chamar a minha coragem e vontade e descer o precipício à procura da minha alma. E a resposta foi apenas esta “ A morte e a dor significa que elas vivem. E viver é razão suficiente para elas serem felizes. Se não vivessem, não sentiam!” E então eu gritei a quem me quis ouvir a coragem e vontade que eu tenho de viver e de sofrer “A mim a capacidade de continuar a ser uma pequena parte de Deus, de ser um pequeno milagre!” E um sorriso abriu-se na face que se encontrava ao lado da minha...

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Sombras dos arbustos!

Estava a passear o meu corpo pelo parque da cidade numa manhã de Dezembro. O céu estava limpo e soprava uma suave brisa fria. Com estas condições era óbvio que se tinha formado geada durante a noite. De facto estava uma leve camada branca a cobrir as folhas da relva, dos arbustos e das árvores. Os raios do sol começavam a derreter os grãos de gelo presos nas árvores, de maneira que parecia estar a chover. Numa parte do parque o sol incidia directamente sobre a relva, de maneira que a água há muito que descongelara. No entanto existia um pequeno arbusto no meio do relvado que, claro, possuía a sua sombra, lançada sobre uma pequena parte no relvado. Na sombra do arbusto a geada ainda não havia dissolvido.

Imagina que a geada matinal são todas as tuas qualidades, ideais, sonhos, que o sol é o mundo em que vivemos e que o arbusto é a tua coragem, a tua vontade de lutar. Quanto maior a tua vontade de lutar, maior será o arbusto e mais sonhos conseguirás realizar, mais ideais conseguirás defender, mais qualidades manterás intocáveis.
Faz crescer este arbusto, torna-o numa árvore. Assim conseguirás realizar mais ambições tuas.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Choro da vinha


Ouvem-se estalidos ao longe. Aquela sinfonia cadenciada aclama à aldeia o desespero de uma mãe, que lhe vê serem retirados seus filhos. Corro para assistir à cena e deparo-me com duas lâminas siamesas a cercarem um filho, a abrirem-se bem e cortarem o cordão umbilical. Os filhos da vinha descrevem um movimento vertical de queda até se encontrarem com a mãe da vinha, sua avó, a terra! E é no colo de sua avó que morrem, são acamados, atados com vimes (filhos do vimeeiro, planta que ajuda na carnificina), deixados a secar ao sol e, depois de o seu calor cozer o pão e aquecer os filhos do homem, são seus restos mortais espalhados por este colo muitas vezes frio, mas sempre pronto para acolher qualquer um, sejam seus netos da vinha, seja seus netos do homem. Enquanto isto a mãe vinha, atado pelos filhos do vimeeiro para não acudir os seus, apenas chora, chora, chora.
Os filhos da vinha foram roubados a sua mãe e sua mãe, agarrada pelos malfeitores, apenas chora de tristeza. E eu, vendo aquela cena,penso no que me foi roubado e choro de raiva. Quem me dera ser vinha, para, ano após ano ver serem-me roubados os meus filhos e chorar de tristeza. Mas não sou vinha, e então vejo serem-me roubados amigos, pais, irmãos, filhos, companheiros, e choro de raiva contra o manuseador da tesoura, em vez de chorar a ausência dos meus ramos, das minhas vides!